10/09/2012 - A origem do sufixo -mente em português

A carta que eu nunca queria ter escrito (25/10/2009)

Há 9 anos, Evandro João Silva entrou no AfroReggae como professor de informática.

Há 7 anos, virou coordenador do núcleo de Parada de Lucas.

Há 4 anos, Evandro criou uma oficina de música clássica em Parada de Lucas.

Há 8 meses, iniciou um projeto social no sistema prisional carioca.

Há 7 meses, discutimos dezenas de novos projetos.

Há 8 dias, Evandro me deu um abraço e me disse até amanhã.

Há 7, virou um mártir.

Desde então, nosso único alento é que mártir não morre.

Vira inspiração, transforma indignação em força.

Força para que continuemos a guerra.

Uma guerra da qual ele, orgulhosa e intensamente, fazia parte.

Uma guerra em que lutaremos sempre.

Mas sempre torcendo para que um dia ela acabe.

(José Júnior)

No texto de José Júnior “A carta que eu nunca queria ter escrito”, verifica-se a presença de dois advérbios ‘orgulhosa e intensamente’. Esse tipo de formação é explicado em nossas gramáticas escolares de forma quase unânime, a saber, antes de receber o sufixo –mente, coloca-se o adjetivo no gênero feminino. Assim é que, para obter o advérbio orgulhosamente e intensamente, o autor recorreu a esse processo. Nem sempre as gramáticas fazem referência sobre as razões da colocação do adjetivo no gênero feminino antes do acréscimo do sufixo.

Examine-se, por exemplo, o que diz o Prof. Evanildo Bechara, em sua Gramática da Língua Portuguesa, p. 293:

“O advérbio, pela sua origem e significação, se prende a nomes ou pronomes, havendo, por isso, advérbios nominais e pronominais. Entre os nominais se acham aqueles formados de adjetivos acrescidos do “sufixo” –mente: rapidamente (= de modo rápido), pessimamente. Na realidade ficam a meio caminho, fonológica e morfologicamente, da derivação e da composição (locução).

Observações:

1ª.) Se o nome tem forma para masculino e feminino, junta-se o sufixo ao feminino. Fazem exceção alguns adjetivos terminados em ês e or que no português antigo só apresentavam uma forma para ambos os gêneros. Daí dizer-se portuguesmente (e não portuguesamente); superiormente (e não superioramente), melhormente.

2ª.) Estes advérbios em –mente se caracterizam por conservar o acento vocabular de cada elemento constitutivo, ainda que mais atenuado, o que lhes permite, numa série de advérbios, em geral, só apresentar a forma em –mente no fim: Estuda atenta e resolutamente.

O Prof. Celso Cunha, em sua Gramática da Língua Portuguesa, p.107, assim se manifesta:

“Pela derivação sufixal se formaram, e ainda se formam, novos substantivos, adjetivos, verbos e, até, advérbios (os advérbios em –mente). Daí classificar-se o sufixo em:

a) nominal…..

b) verbal….

c) adverbial, que é o sufixo –mente acrescentado à forma feminina de um adjetivo: linda-mente pia-mente risonha-mente.

É interessante notar que as gramáticas fazem menção da formação do advérbio. Nenhuma delas, contudo, chega a mencionar a análise do a que aparece, por exemplo, em linda-mente. E, de fato, esse a é um elemento de complexa classificação, se se analisar o –mente como sufixo.

Sabe-se que a formação do advérbio de modo em latim se fazia mediante o sufixo –ē ou –ter, conforme o adjetivo a que estivessem ligados. Observe-se, a propósito, o seguinte texto de Cícero:

Quam ob rem, si quis uniuersam et propriam oratoris uim definire complectique uolt, is orator erit mea sententia hoc tam graui dignus nomine qui, quaecumque res inciderit quae sit explicanda, prudenter et composite et ornate et memoriter dicet cum quadam actionis etiam dignitate”.

(Cic. De Oratore. Les Belles Lettres, L.I,XV,64)

[Portanto, se se quiser definir e englobar a força intrínseca e própria do orador, será digno de tão importante denominação, a meu ver, aquele que – qualquer que seja o assunto que surgir para ser explicado – o desenvolver com sagacidade, com arte, com elegância e de memória, bem como também com uma certa dignidade de ação.]

Prudenter e memoriter se prendem a prudens e memor, adjetivos de segunda classe; compositē e ornatē, por sua vez, estão relacionados a compositus e ornatus, formas verbais que acompanham os adjetivos de primeira classe.

Esse tipo de formação latina desapareceu e não há vestígios do mesmo nas línguas românicas.

No texto de Catulo é possível identificar a origem românica da formação dos advérbios de modo. Vejamos o texto.

8

Miser Catulle, desinas ineptire,

Et quod uides perisse perditum ducas,

Fulsere quondam candidi tibi soles,

Cum uentitabas quo puella ducebat

Amata nobis quantum amabitur nulla.

Ibi illa multa tum iocosa fiebant,

Quae tu uolebas nec puella nolebat.

Fulsere uere candidi tibi soles.

Nunc iam illa non uolt; tu quoque, inpotens, noli,

Nec quae fugit sectare, nec miser uiue,

Sed obstinata mente perfer, obdura.

Vale, puella. Iam Catullus obdurat,

Nec te requiret nec rogabit inuitam;

At tu dolebis, cum rogaberis nulla.

Scelesta, uae te; quae tibi manet uita!

Quis nunc te adibit? Cui uideberis bella?

Quem nunc amabis? Cuius esse diceris?

Quem basiabis? Cui labella mordebis?

At tu, Catulle, destinatus obdura.

(Catulle. Poésies. Les Belles Lettres)

Infeliz Catulo, deixa de loucura,

e o que pereceu considera perdido.

Outrora brilharam-te dourados sóis

quando ias aonde levava a menina

amada por nós como ninguém será;

lá muitos deleites havia que bem

querias tu e ela não queria mal.

É certo, brilharam-te dourados sóis…

Agora ela não quer: tu, louco, não queiras

nem busques quem foge nem vivas aflito,

porém duramente suporta, resiste.

Vai, menina, adeus, Catulo já resiste,

não vai te implorar nem à força exigir-te

mas quando ninguém te quiser vais sofrer.

Ai de ti, maldita, que vida te resta?

Pois quem vai te ver? P’ra quem te enfeitarás?

E quem vais amar? De quem dirás que és?

Quem hás de beijar? Que lábios vais morder?

Mas tu, Catulo, resoluto, resiste.

(Trad.: João Angelo Oliva Neto)

Observem que o poeta se serve da forma obstinata em combinação com o substantivo mente, ablativo de mens, mentis ‘espírito, plano, intenção’. O Prof. João Ângelo traduziu obstinata mente por duramente. Se se quiser fazer uma tradução palavra por palavra, o resultado será ‘com mente obstinada’, um adjunto adverbial de modo. E é essa combinação de um adjetivo com o substantivo mens, que dará origem às formações românicas, dentre elas o português.

Em seu notável livro História e estrutura da língua portuguesa, o Prof. Mattoso Câmara assim se manifesta sobre essa formação:

“Consiste no emprego de mente, inicialmente o ablativo do substantivo feminino mens ‘mente’, combinado com um adjetivo que se quer usar adverbialmente: o adjetivo é obrigatoriamente anteposto e concorda em gênero e número com mente, que tem na construção o sentido geral de ‘maneira, modo’. No latim literário clássico já se encontra o início dessa construção, mas ainda sem a significação diluída e genérica do substantivo mente (alta mente ‘com um estado de alma superior).

Continua o Prof. Câmara: “Continua a se tratar em português de uma locução: dois vocábulos fonológicos e mórficos distintos usados em bloco como uma unidade secundária. Com efeito, o adjetivo tem sempre o seu acento, baixado a grau menos intenso do que em posição isolada e se flexiona com a desinência de feminino para concordar com mente. Daí, a coordenação de dois ou mais adjetivos, subordinados a um único vocábulo mente no fim da sequência: firme, serena e corajosamente. É mera convenção da língua escrita fazer um só vocábulo do adjetivo e mente.”

Para o Prof. Mattoso, pois, em corajosamente há dois vocábulos: corajosa + mente. O mente não é considerado sufixo.

Observem que em nenhum momento Mattoso Câmara justifica sua análise tendo como base o latim. Diz ele: “o adjetivo tem sempre seu acento, baixado a grau menos intenso do que em posição isolada e se flexiona com a desinência de feminino para concordar com mente”.

Referências bibliográficas

  1. CÂMARA JR., J. Mattoso. Dicionário de Filologia e Gramática. Rio: J.Ozon.

  2. ——. História e Estrutura da Língua Portuguesa. Rio: Padrão. 1976.

  3. Cunha, Celso Ferreira da. Gramática da Língua Portuguesa. Rio:FENAME. 1979.

  4. Oliva Neto, João Ângelo. O Livro de Catulo. São Paulo:Editora da Universidade de São Paulo. 1996.

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