08/09/2012 - O morfema aspectual -is- em latim

Observem-se os seguintes dados: esse, fuisse; essem, fuissem; eram, fueram, em que esse é o infinitivo presente, fuisse, o infinitivo perfeito, essem, o imperfeito do subjuntivo, eram, o imperfeito do indicativo e fueram, o mais-que-perfeito do indicativo.

Em esse encontra-se o radical es– e o sufixo –se do infinitivo. Esse mesmo sufixo –se se manifesta na forma fuisse, em que o radical é fu-, acrescido do elemento –is-, encontrável em todas as formas do perfectum, à exceção da 1ª e 3ª pess. do sg. do perfeito do indicativo e a 1ª pess.pl. do mesmo tempo.

Também em fuissēs ele pode ser visualizado: fu- é o radical, -is-, o elemento acima mencionado, sē, o sufixo modo-temporal e –s, a desinência número-pessoal. Sua segmentação é, pois, fu+is+sē+s. Note-se que o –sē-, que aparece em fuissēs, é o mesmo de essēs – es-sē-s. Já em fuerās, o sufixo modo-temporal é –ā-, presente também em erās – er-ā-s, precedido do mesmo elemento –is-, alterado para –er-. É que houve aqui a aplicação de duas regras fonológicas. Uma é a que diz respeito à mudança do s para r, como se pode verificar nos dados abaixo: flōs,flōris; est, erat; cinis,ciněris; corpus,corporis; opus,operis etc.

Essa regra pode ser visualizada da seguinte forma:

(1) s –> r / v-v (r se transforma em r, no contexto entre vogais).

Sendo –sě o sufixo do infinitivo (cf. es-sě), a regra acima especificada aplica-se, evidentemente, a *amāse, *monēse, *legěse, *capĭse, *audīse, que se apresentam como amāre, monēre, legěre, capěre, audīre, respectivamente.

A outra regra é a do abaixamento do i para ě antes de r. Vejamos: cinis,ciněris, capis, capěris. Deve-se acrescentar que essa mudança do ĭ para ě só é possível quando a vogal é breve, pois se o i fosse longo não haveria mudança, conforme se pode verificar em audīs, audīris, em que o i permanece, já que é longo. Cumpre, aliás, lembrar que apenas as vogais breves latinas aceitam mudanças fonológicas, seguindo, pois, a regra acima mencionada o padrão de mudanças fonológicas da língua latina.

A formalização dessa segunda regra pode ser vista da seguinte forma:

(2) ĭ –> ě/ -r (i breve muda para e breve, antes de –r).

Tem-se, pois, para fuěrās, a forma subjacente *fuisās, que se apresenta como fuěrās, após a aplicação de (1) e (2), nessa ordem, ou seja, depois de (1) obtém-se *fuirās, e de (2), fuěrās.

Em fuěras, portanto, temos o radical fu-, o elemento –is– alterado, o sufixo modo-temporal –ā-, o mesmo, aliás, presente em erās, proveniente de *es-ā-s.

Verifica-se, como já dissemos, que todos os tempos de perfectum, com excecção de algumas pessoas do perfeito do indicativo (especificamente, a 1ª e 3ª pess.sg.) apresentam o elemento –is-, que, combinado com as marcas modo-temporais ĭ, do futuro imperfeito, ā, do imperfeito do indicativo, ī, do presente do subjuntivo, sē, do imperfeito do subjuntivo, do verbo esse, formam, respectivamente, o futuro do perfectum, o mais-que-perfeito do indicativo, o perfeito do subjuntivo e o mais-que-perfeito do subjuntivo. Cumpre, no entanto, acrescentar que na 1ª pess. do sg. do futuro do perfectum a marca do tempo não se atualiza. Assim, temos fuěrō, proveniente de *fuĭsō.

Archibald Hill, em Introduction do linguistic structures, p.467-468, vê em amauerim, amaueram, amauero, amauissem, respectivamente, um alomorfe ue/uis. O equívoco dessa análise consiste em interpretar os elementos –we- e –wis- como elementos formadores do perfectum. Ora, em amauissēs, por exemplo, temos o radical de perfectum amāu-, seguido do morfema –is-, mais o sufixo modo-temporal –sē-, seguido, por sua vez, da desinência número-pessoal. Já em amauěrās, o que ocorre é a mudança do s para r e o consequente abaixamento do ĭ para ě. Sua representação subjacente é, pois, *amauĭsās, que se atualiza em amauěrās.

É surpreendente como a língua funciona na articulação de seus elementos internos. Cabe ao estudioso descobri-los e explicitá-los, o que tentamos mostrar no presente trabalho.

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