28/08/2012 - Algumas regras fonológicas e sua repercussão na morfologia

Há, no Latim Clássico, uma estreita correspondência entre letra e fonema, ou seja, a escrita e a fala não se distanciavam muito, como ocorre, por exemplo, em diversas línguas atuais, em que essa correspondência está bem mais afastada. Examinem-se as palavras sintaxe, exame, enxada, fixo, e verificar-se-á que a letra x tem na fala realizações fonéticas variadas, a saber, /s/, /z/, /s/, /ks/, o que, todavia, não ocorria em latim, uma vez que ao x correspondiam sempre dois fonemas—o k e o s. A criança romana certamente não se defrontava com o tipo de dificuldades que o falante do português enfrenta para o domínio da língua escrita. De fato, como observa Sebastian Mariner Bigorra, no Apêndice Fonemática Latina … el alfabeto latino usual en la época clásica estaba bastante bien adaptado a los fines de representación de sus fonemas1.

Não busca, no entanto, o presente trabalho descrever os fonemas do latim nem tampouco explorar aspectos da língua latina já amplamente debatidos e esclarecidos em obras especializadas.

Devemos, contudo, estar atentos à combinação dos fonemas latinos e verificar os diversos aspectos dessa combinação.

Comparem-se, por exemplo, os seguintes dados:

scribo, scripsi, scriptum, scribere escrever

rego, rexi, rectum, regere governar

lapis, lapidis pedra

nox, noctis noite

lux, lucis luz

dux, ducis chefe

lex, legis lei

rex, regis rei

fons, fontis fonte

mons, montis monte

ueritas, ueritatis verdade

possum, potui, posse poder

Temos de estar atentos, repito, aos fenômenos fonéticos que ocorrem nas formas enumeradas, apresentando-lhes uma descrição cuidadosa que, a meu ver, facilita a compreensão de aspectos morfológicos da língua latina. Na terceira declinação, sobretudo, existem acomodações dos temas ao receberem eles a desinência –s de nominativo, como é o caso de *leg–, cuja consoante –g, sonora, se ensurdece diante de uma consoante surda.

Se observarmos o quadro das consoantes

p          t             k

b          d             g

f          s                    h

m          n             ŋ

.          l

.          r

verificaremos que as únicas consoantes que apresentam oposição surda-sonora são as oclusivas. As sonoras, ao entrarem em contacto com uma surda, se ensurdecem. Assim, o b de scribo se altera para p, como em scribo, scripsi, scriptum; o g de leg–, reg–, muda para k, o que se verifica em /leks/ , /reks/ .

Essa é uma assimilação parcial quanto à sonoridade e, para efeito de melhor visualização, podemos formalizar a regra:

Cson -> Csu / — Csu

que se lê: uma consoante sonora muda para consoante surda, diante de consoante surda.

Em artigo publicado na Revista Calíope—Presença Clássica no 9 mostramos que, no que diz respeito também à dental sonora, essa apresenta a mudança para surda, como é o caso de adtineo/attineo. Mostramos, ainda, que as regras fonológicas se apresentam ordenadas, corroborando hipótese formulada por Sanford A. Schane de que frequentemente as regras fonológicas são ordenadas2.

Antes, portanto, de chegar a lapis (pedra), cujo tema é lapid– (cf. genitivo plural lapid–um), houve o ensurdecimento do d e, posteriormente, a assimilação total do t ao s, e a simplificação das consoantes geminadas em final de palavra, ou seja, lapid-s -> lapit-s -> lapis-s -> lapis.

Já em fons <- *fonti-s (cf. gen. pl. fonti-um) houve primeiro a queda do i: *fonti-s -> fonts -> fonss -> fons . É de meu entender que esses e outros fenômenos, devidamente explicados, tornam claras as mudanças ocorridas no tema das palavras latinas.

  1. BIGORRA, Sebastian Mariner. Fonemática Latina. In: BASSOLS DE CLIMENT, Mariano. Fonética Latina. Madrid: Consejo Superior de Investiganciones Científicas. 1967.

  2. SCHANE, Sanford A. Generative Phonology. New Jersey: Prentice-Hall, Inc. 1973.

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