25/08/2012 - Origem das preposições portuguesas

O latim, sabe-se, manifesta as relações sintáticas dos termos da oração mediante terminações específicas que lhes indicam a função sintática que desempenham na frase. É consenso entre os linguistas que essas terminações, no entanto, nem sempre eram suficientes para expressar com precisão as diferentes relações sintáticas próprias de cada caso. Rafael Lapesa, por exemplo, (apud Ivo Castro em História da Língua Portuguesa, p.122) nos diz: “ las desinencias casuales no bastaban para expresar com precisión las distintas relaciones encomendadas a cada una, y ya desde el latín más arcaico se auxiliaban con preposiciones especificadoras”.

O número de preposições latinas é o triplo do que há em português, a saber, ad: a, para; aduersum (aduersus): contra; ante: diante de; apud: junto de; circiter: cerca de; circa, circum: à volta de; cis, citra: aquém de; contra: contra; erga: para com; extra: fora de; infra: abaixo de; inter: entre; intra: dentro de; iuxta: ao pé de; ob: por causa de; penes: em poder de; per: através de; pone: atrás de; post: depois de; praeter: além de, exceto; prope: perto de; propter: por causa de; secundum: conforme; supra: acima de; ultra, trans: além de; uersus: em direção a (construídas com o acusativo); a,ab,abs: de, desde; absque: sem; coram: em presença de; cum: com; de: de, acerca de; e,ex: de, desde; prae: diante; pro: a favor de; sine: sem; tenus: até (construídas com o ablativo); in, para, em; sub: para (debaixo); super: sobre; supter: debaixo de (construídas ora com o acusativo ora com o ablativo).

Com a eliminação da flexão casual nas línguas românicas, a preposição tornou-se um elo ainda mais importante na relação entre os termos da oração, nessas línguas. Uma das características da estrutura românica, nos dizeres de Mattoso Câmara, é a utilização da preposição para a relação nominal. Para se dizer, por exemplo, em latim, a expressão temor do povo utiliza-se a terminação do genitivo. A relação que se estabelece em português mediante a preposição de, em latim é estabelecida utilizando-se a terminação do genitivo, a saber, na situação específica, timor populi. Remodela-se, assim, – e que remodelação! – a língua.

Grande parte das preposições latinas se perderam. As que evoluíram para o português são em número bastante reduzido, conforme se verá a seguir.

É Mattoso Câmara quem deixa bem clara essa questão em Dicionário de Filologia e Gramática:

“Sob o ponto de vista diacrônico, as preposições portuguesas provêm de: 1) preposições latinas (a, de, por, com, em, sem); 2) aglutinações processadas no romanço de duas ou mais preposições latinas (per+ad -> para, ad + post -> após, de+ex+de -> desde); 3) palavras portuguesas, nominais ou verbais, que sofreram gramaticalização (segundo, conforme, exceto, salvo); 4) locuções (em vez de, por força de, em lugar de).”

As preposições de (1) e (2) são chamadas essenciais. Ao todo, são 18, a saber, a, ante, após, até, com contra, de, desde, em, entre, para, perante, per, por, sem, sob, sobre, trás.

Eis a origem de cada uma delas:

a < lat. ad; ante < lat. ante; após < lat. ad + post; até (arc.ataa) < do lat. ou do árabe; com < lat. cum; contra < lat. contra; de < lat. de; desde < lat. de + ex + de; em < lat. in; entre < lat. inter; para (arc. pera) < lat. per + ad; per< lat. per; perante< per+ante; por < lat. pro; sem < lat. sine; sob (arc.so) < lat. sub; sobre < lat. super; trás < lat. trans.

Por seu próprio significado, preposição (prae + positio: posição antes) é o termo que vem colocado antes de outro. No Latim Clássico as preposições já estão bem consolidadas, mas nem sempre foi assim, conforme análise dos estudiosos, os quais dizem que, num estágio mais antigo da língua, o indo-europeu, os casos eram suficientes para indicar o sentido, e as preposições, inicialmente, eram formas adverbiais.

Em combinação com outras formas, com o artigo, por exemplo, algumas preposições sofrem acomodações fonéticas: a + o -> ao, a + a ->aa> à / de + o -> do, de + a -> da / em + o -> no, em + a -> na / per + o -> pelo, per + a -> pela / por + o -> polo, por + a -> pola etc.

Considerações sobre algumas preposições

por < lat. pro / per< lat. per

No português arcaico, a preposição per competia com por. Ela ainda se mantém em algumas expressões, como aponta o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa: “cada um de per si trouxe um presente” (individualmente); “os fatos históricos não podem ser analisados de per si, sem levar em conta as circunstâncias” (isoladamente); “a palavra já de per si denota discriminação” (por si mesmo). A par de pelo (per+lo> pello (assimilação do r ao l)> pelo (simplificação das geminadas), havia no português arcaico pollo (de por+lo> pollo (assimilação do r ao l) > polo (simplificação das geminadas). Essa competição perdurou até meados do século XVII, tendo por suplantado per, que, no entanto, permaneceu em pelo, pela, pelos, pelas, que, como visto, é uma combinação de per mais o artigo definido.

para / pera (arc.)

Segundo A.G.Cunha, só a partir de meados do século XVII é que a forma atual para começa a suplantar a antiga pera.

Na linguagem informal, a preposição para sofre redução, perdendo o a interno, uma síncope, portanto. Fica, pois, reduzida a pra, que, combinada com o artigo, fornece as formas pro, pros, pra, pras. Interessante se torna a combinação com a forma reduzida de vocês (voceis) > oceis. Em comparação com a linguagem formal para vocês, o português, na sua variante informal se serve da forma proceis: *para oceis > *praoceis > proceis

com-/-go,-co

Na fase arcaica do português, há as formas mego/migo, tego/tigo, sego/sigo, nosco, vosco. O –go e o –co que aparecem com esses pronomes são formas pospostas, que posteriormente serão reforçadas com a preposição co-/com: comigo, contigo, consigo, conosco, convosco.

As formas arcaicas mego, tego, sego, nosco, vosco são fruto da evolução de mecum, tecum, secum, nobiscum, uobiscum, utilizadas em latim depois do pronome.

Os pronomes atuais comigo, contigo, consigo, conosco, convosco carregam em si, pois, em termos históricos, a presença de duas preposições.

Referências Bibliográficas

  1. CÂMARA JR., J. Mattoso. Dicionário de Filologia e Gramática. Rio: J.Ozon.

  2. ———– História e Estrutura da Língua Portuguesa. Rio: Padrão. 1976.

  3. CASTRO, Ivo. Curso de História da Língua Portuguesa. Lisboa. Universidade Aberta. 1991.

  4. CUNHA, A.G. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Rio: Nova Fronteira. 1996.

  5. Houaiss, A. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio: Ed.Objetiva. 2001

  6. WILLIAMS, Edwin B. Do Latim ao Português, trad. port. de Antônio Houaiss. Rio: TB. 1975. 3a. ed.

Voltar